A Era do Excesso — Parte 2: quando a informação deixa de buscar a verdade e começa a defender uma crença

Pessoa diante de uma espiral de resultados e informações que refletem a própria crença, simbolizando o viés de confirmação.

Nunca foi tão fácil provar que estamos certos. Basta pesquisar o suficiente.

Existe uma diferença aparentemente pequena entre procurar uma informação para descobrir se estamos certos e procurar uma informação para provar que estamos certos. Na primeira situação, existe pelo menos a possibilidade de terminarmos a pesquisa pensando diferente. Na segunda, a conclusão já estava pronta antes mesmo de abrirmos o Google. O restante do trabalho consiste apenas em encontrar alguma coisa suficientemente convincente para defendê-la.

Esse é um dos aspectos da Era do Excesso que mais me incomoda. Temos acesso a artigos científicos, estatísticas, especialistas, livros, vídeos, bancos de dados e agora inteligências artificiais capazes de reunir tudo isso em segundos. Seria razoável imaginar que tamanha disponibilidade de informação nos aproximaria automaticamente de conclusões melhores. Mas existe um problema: mais evidências disponíveis também significam mais evidências disponíveis para selecionar.

E somos particularmente bons em selecionar aquelas de que gostamos.

“Eu tenho um estudo”

Já me deparei muitas vezes com uma espécie de argumento de autoridade moderno: “existe um estudo que mostra isso”.

A frase parece encerrar a discussão.

Só que um estudo não deixa de ser ciência simplesmente porque confirma aquilo que penso, assim como não passa a ser ruim automaticamente porque contradiz minha opinião. A pergunta deveria vir depois: que estudo? Qual era a hipótese? Quem foi estudado? Qual era a amostra? O que efetivamente foi medido? O resultado encontrou uma associação ou demonstrou uma relação causal? Existem outros trabalhos chegando a resultados diferentes?

E existe uma pergunta que considero ainda mais interessante:

Você encontrou esse estudo enquanto investigava uma pergunta ou procurou o estudo porque precisava defender uma resposta?

A psicologia possui um nome bastante conhecido para parte desse comportamento: viés de confirmação. Em uma revisão clássica da literatura, Raymond Nickerson descreve o fenômeno como a busca ou interpretação de evidências de maneiras favoráveis às crenças, expectativas ou hipóteses que já possuímos. O fenômeno aparece de diferentes formas e não nasceu, evidentemente, com a internet.

A internet não criou nossa necessidade de estar certos. Ela apenas nos entregou uma quantidade de material que nenhuma geração anterior conseguiu consultar com tanta facilidade.

Por isso continuo gostando de uma ideia que apareceu no primeiro texto desta série:

a internet deu ao nosso viés de confirmação um mecanismo de busca.

O problema não é necessariamente mentir

Talvez a parte mais interessante seja que não precisamos falsificar uma informação para construir uma conclusão enviesada.

Podemos usar dados verdadeiros.

Posso escolher um determinado período de uma série histórica. Posso encontrar uma pesquisa favorável à minha posição e ignorar outras. Posso selecionar uma estatística verdadeira sem explicar o contexto. Posso destacar determinado resultado de um artigo e deixar de mencionar suas limitações.

Cada peça individualmente pode ser verdadeira.

E o quadro construído com elas pode continuar profundamente distorcido.

É por isso que tenho certa resistência quando uma discussão se transforma em uma competição para descobrir quem possui mais links. Uma pessoa apresenta cinco pesquisas. A outra apresenta oito. A primeira volta com uma meta-análise. Em algum momento temos uma quantidade impressionante de informação e ainda não respondemos à pergunta original.

A quantidade de evidências apresentadas não substitui a necessidade de entender o que aquelas evidências realmente permitem concluir.

Esse problema não pertence exclusivamente à política, religião, tecnologia ou ciência. Ele aparece sempre que temos alguma coisa investida em uma conclusão: nossa identidade, nosso grupo, uma decisão anterior, dinheiro, reputação ou simplesmente a desagradável possibilidade de admitir que estávamos errados.

Quanto mais inteligentes, menos fazemos isso?

Aqui encontrei durante a pesquisa uma coisa particularmente desconfortável.

Ser inteligente não parece nos proteger automaticamente desse comportamento.

Keith Stanovich, Richard West e Maggie Toplak estudam algo chamado myside bias: a tendência de avaliar evidências, produzir argumentos e testar hipóteses de maneira favorável às nossas opiniões anteriores. Em uma revisão de pesquisas sobre o fenômeno, os autores destacam que sua magnitude apresenta pouca relação com medidas de inteligência.

Isso é interessante porque existe uma intuição bastante confortável de que pessoas inteligentes seriam naturalmente menos suscetíveis a esse tipo de erro.

Talvez não.

Uma pessoa com grande capacidade intelectual continua possuindo crenças, preferências e interesses. E uma capacidade maior de argumentação também pode significar uma capacidade maior de construir justificativas sofisticadas para aquilo que ela já queria concluir.

O trabalho clássico de Ziva Kunda sobre raciocínio motivado ajuda a entender essa diferença. A motivação para chegar a uma conclusão específica pode influenciar quais crenças e estratégias cognitivas acessamos e como avaliamos informações, embora não tenhamos liberdade ilimitada para acreditar em qualquer coisa: ainda precisamos construir justificativas que nos pareçam razoáveis.

Essa última parte é especialmente importante.

Normalmente não pensamos:

“Eu quero acreditar nisso, então vou ignorar deliberadamente tudo que diz o contrário.”

Seria fácil perceber o problema.

O processo pode ser muito mais sofisticado. Encontramos razões pelas quais aquela pesquisa contrária não se aplica. Questionamos a metodologia. Identificamos uma possível limitação. Lembramos de outro especialista que discorda.

Tudo isso pode ser perfeitamente legítimo.

A pergunta incômoda é: aplicaríamos o mesmo rigor se o resultado confirmasse aquilo que já acreditávamos?

A verdadeira dificuldade de pensar cientificamente

É aqui que acho que existe uma confusão sobre ciência.

Ciência não significa tratar toda afirmação como igualmente duvidosa. Existem conclusões sustentadas por conjuntos de evidências muito mais robustos do que outras. Questionar por questionar também não torna ninguém mais científico.

O ponto é outro.

Uma investigação precisa admitir, pelo menos em princípio, a possibilidade de a hipótese estar errada.

Se nenhuma evidência possível puder modificar minha conclusão, então talvez eu não esteja mais investigando aquela conclusão. Estou apenas defendendo-a.

E isso vale para quem está em um laboratório, para quem está discutindo política, para quem interpreta um texto religioso e para mim enquanto escrevo este artigo.

Aliás, talvez esse último seja o teste mais difícil.

É relativamente fácil perceber o viés de confirmação de alguém que pensa diferente de nós. O dele praticamente salta aos olhos.

O nosso costuma parecer apenas bom senso.

Talvez precisemos pesquisar ao contrário

Comecei a pensar que uma maneira interessante de testar uma opinião não é perguntar apenas:

“Que evidências sustentam aquilo que penso?”

Mas também:

“Qual é a melhor evidência de que posso estar errado?”

Não significa abandonar uma posição sempre que encontramos uma objeção. Significa descobrir se nossa conclusão sobrevive quando paramos de escolher apenas os adversários mais fáceis.

Talvez eu encontre os melhores argumentos contrários e continue pensando exatamente como antes. Ótimo. Pelo menos minha conclusão passou por um teste mais sério.

Talvez descubra que preciso acrescentar uma ressalva.

Talvez mude parcialmente de posição.

E, em algumas situações, talvez precise admitir que estava errado.

Isso parece perda apenas se nosso objetivo for vencer a discussão.

Se o objetivo for compreender melhor alguma coisa, descobrir que estávamos errados também é informação.

Veredito do Teste de Realidade

A abundância de informação deveria facilitar nossa busca pela verdade. Em muitos aspectos, facilitou. Nunca tivemos tanto acesso a pesquisas, dados, perspectivas diferentes e conhecimento acumulado.

Mas essa mesma abundância criou uma possibilidade curiosa: podemos passar horas pesquisando sem nunca colocar nossa própria conclusão em risco.

Escolhemos fontes, estudos, especialistas e estatísticas. Construímos uma argumentação extremamente bem fundamentada. E talvez, sem perceber, tenhamos utilizado toda essa capacidade apenas para chegar exatamente ao lugar de onde partimos.

O problema, portanto, não é ter opinião. Também não é procurar evidências que sustentem aquilo que pensamos. É necessário fazer isso.

O teste começa quando encontramos uma evidência que diz o contrário.

O que fazemos com ela?

Talvez essa seja uma medida melhor de pensamento crítico do que a quantidade de estudos que conseguimos citar.

Porque informação suficiente para defender nossas crenças provavelmente sempre encontraremos.

A pergunta mais difícil é se ainda estamos dispostos a encontrar alguma que possa mudá-las.


Referências científicas

  • Nickerson, R. S. (1998). Confirmation Bias: A Ubiquitous Phenomenon in Many Guises. Review of General Psychology, 2(2), 175–220.
  • Kunda, Z. (1990). The Case for Motivated Reasoning. Psychological Bulletin, 108(3), 480–498.
  • Stanovich, K. E.; West, R. F.; Toplak, M. E. (2013). Myside Bias, Rational Thinking, and Intelligence. Current Directions in Psychological Science, 22(4), 259–264.
  • Stanovich, K. E.; West, R. F. (2007). Natural myside bias is independent of cognitive ability. Thinking & Reasoning, 13(3), 225–247.

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