A Era do Excesso: quando saber mais começa a atrapalhar

Homem analisando documentos diante de um notebook, representando excesso de informação e dificuldade de decisão.

Passamos séculos tentando resolver a falta de informação. Agora talvez precisemos aprender a lidar com o problema que veio depois dela: o excesso.

Nunca tivemos acesso a tanta informação. E talvez nunca tenha sido tão fácil encontrar uma boa razão para não decidir.

Pesquisamos, comparamos, assistimos a vídeos, lemos avaliações, procuramos estudos — e agora ainda podemos pedir para uma IA organizar tudo isso por nós. A promessa parece óbvia: quanto mais sabemos, melhores deveriam ser nossas decisões.

Mas comecei a desconfiar dessa conta. Em algum momento, mais informação deixa de esclarecer e começa a produzir o contrário: mais dúvida, mais possibilidades e mais razões para continuar procurando.

Durante muito tempo, nosso problema foi conseguir informação. Lembro das enciclopédias Barsa, das atualizações que incorporavam novos acontecimentos, das revistas, jornais e publicações especializadas.

Informação tinha custo, ocupava espaço e precisava ser procurada. A internet mudou essa lógica.

Wikipedia, mecanismos de busca e, mais recentemente, ferramentas como o ChatGPT colocaram uma quantidade quase absurda de conhecimento ao alcance de uma pergunta. Resolvemos em grande parte o problema do acesso.

Talvez tenhamos criado outro: como descobrir, no meio de tudo isso, o que realmente importa?

Quando mais informação deixa de ajudar

Pense em algo relativamente simples: comprar um notebook. Algumas décadas atrás, visitaríamos algumas lojas, conversaríamos com vendedores, compararíamos meia dúzia de modelos e decidiríamos.

A desvantagem era evidente: nossa escolha saía com muito menos informação. Hoje podemos comparar centenas de modelos.

Temos benchmarks, avaliações de compradores, vídeos no YouTube, fóruns, Reddit, comparadores de preço, especificações e histórico de valores. Podemos ainda perguntar ao ChatGPT qual computador atende melhor às nossas necessidades e pedir uma comparação detalhada entre os finalistas.

Teoricamente, deveríamos terminar esse processo muito mais seguros. Mas não é difícil terminar pensando: “será que eu deveria pesquisar mais um pouco?”

A psicologia estuda diferentes versões desse problema. Uma delas é a information overload, a sobrecarga de informação: quando a quantidade, complexidade ou velocidade das informações ultrapassa nossa capacidade de processá-las.

Revisões da literatura associam o fenômeno a maior pressão cognitiva, dificuldades na tomada de decisão e perda de produtividade. Existe também o choice overload, o excesso de escolha.

Aqui vale evitar uma conclusão fácil demais: mais opções não tornam automaticamente nossas decisões piores. Uma meta-análise publicada no Journal of Consumer Psychology, com 99 observações e 7.202 participantes, encontrou algo mais interessante.

Os efeitos negativos do excesso de escolha dependem de fatores como a complexidade das alternativas, a dificuldade da tarefa, a incerteza sobre o que queremos e o objetivo da decisão.

Talvez o problema, então, não seja ter muita informação. Seja precisar descobrir, no meio dela, qual informação merece nossa atenção.

Talvez estejamos procurando certeza, não informação

Herbert Simon desenvolveu a ideia de racionalidade limitada justamente questionando a imagem de seres humanos capazes de conhecer todas as alternativas, calcular todas as consequências e escolher racionalmente a melhor possibilidade. Nossas decisões acontecem dentro de limitações de tempo, informação e capacidade cognitiva.

Acho interessante trazer essa ideia para 2026. Nossa capacidade de produzir e acessar informação cresceu de forma extraordinária.

Nossa capacidade de prestar atenção e analisar tudo isso não cresceu na mesma proporção. Criamos mecanismos capazes de encontrar milhões de resultados em segundos.

Continuamos com um cérebro. Simon também trabalhou com o conceito de satisficing.

Simplificando bastante: nem sempre procuramos — ou conseguimos encontrar — a alternativa perfeita. Muitas vezes decidimos quando encontramos algo que atende suficientemente aos nossos critérios.

Talvez eu não precise encontrar o melhor notebook disponível no mercado. Preciso encontrar um notebook suficientemente bom para o que pretendo fazer, dentro do preço que estou disposto a pagar.

Parece óbvio quando colocado assim. Na prática, não acho que seja tão simples.

Porque talvez exista outra coisa por trás da nossa pesquisa incessante: não estamos procurando apenas informação. Estamos procurando certeza.

Queremos escolher o computador certo, o investimento certo, o curso certo, a ferramenta certa. Enquanto continuamos pesquisando, existe a sensação de que podemos eliminar o risco de uma decisão ruim.

Talvez a próxima avaliação, o próximo estudo ou a próxima comparação finalmente revele a escolha perfeita. Só que cada nova informação também pode acrescentar uma variável que não conhecíamos.

Você estava decidido pelo notebook A até descobrir que o B tem uma tela melhor. Começa a considerar o B e descobre que o C tem bateria melhor.

Então alguém avisa que uma nova geração será lançada daqui a dois meses. No final, você sabe muito mais do que sabia quando começou.

E está menos decidido. Talvez uma das ironias da Era do Excesso seja justamente esta: estar mais informado e estar mais preparado para decidir não são necessariamente a mesma coisa.

O problema deixou de ser encontrar. Passou a ser filtrar.

Essa discussão ganhou outro significado para mim recentemente, enquanto estudava análise de dados. Uma das ideias introdutórias que me chamou atenção foi perceber que o trabalho de um analista não consiste em simplesmente ter muitos dados.

É preciso selecionar, limpar, organizar, contextualizar e transformar aquilo em algo que ajude alguém a compreender um problema ou tomar uma decisão. Comecei a imaginar isso como um campo enorme.

Se existe alguma coisa valiosa crescendo ali, não adianta aumentar o tamanho do campo. Em algum momento alguém precisa entrar, capinar, separar o ruído e encontrar o que realmente pode ser aproveitado.

Talvez estejamos precisando fazer a mesma coisa com informação. Durante muito tempo, possuir informação representava vantagem.

Hoje, quando praticamente qualquer assunto nos devolve milhares de resultados, uma habilidade cada vez mais valiosa talvez seja saber o que ignorar. Isso vale para dados, notícias, artigos científicos, vídeos, opiniões e também para inteligência artificial.

O ChatGPT pode reunir, resumir e relacionar uma quantidade de informação numa velocidade que eu dificilmente conseguiria sozinho. Mas aumentar minha capacidade de obter respostas não elimina a necessidade de saber qual pergunta estou tentando responder.

Uma ferramenta capaz de me entregar dez vezes mais informação não resolve necessariamente meu problema se eu não souber quais 10% realmente importam.

E se não estivermos procurando uma resposta?

Existe ainda uma camada mais incômoda nessa discussão. Até aqui parti da ideia de que procuramos informação porque queremos compreender alguma coisa ou tomar uma decisão melhor.

Mas nem sempre fazemos isso. Às vezes começamos a pesquisa depois que já sabemos qual conclusão queremos encontrar.

Em vez de perguntar “o que as evidências mostram?”, começamos silenciosamente a procurar “quais evidências sustentam aquilo que eu já penso?”.

Isso não nasceu com a internet.

O chamado viés de confirmação é estudado pela psicologia há muito tempo e envolve nossa tendência de buscar ou interpretar evidências de maneira favorável a crenças e hipóteses que já possuímos. Uma revisão clássica de Raymond Nickerson mostra como o fenômeno aparece em diferentes contextos do raciocínio humano.

A internet não inventou nosso viés. Mas talvez tenha feito algo particularmente interessante: deu ao nosso viés um mecanismo de busca.

Hoje existe uma quantidade tão grande de pesquisas, estatísticas, especialistas, artigos, vídeos e interpretações disponíveis que frequentemente conseguimos encontrar alguma coisa que pareça confirmar praticamente qualquer posição que já possuíamos. E isso abre uma pergunta ainda mais desconfortável: estamos procurando informação para descobrir no que acreditar, ou procurando informação para continuar acreditando naquilo que já acreditávamos?

Essa pergunta merece seu próprio Teste de Realidade.

Veredito do Teste de Realidade

Então, mais informação nos ajuda a tomar decisões melhores? Sim — até que ela deixe de responder às perguntas relevantes e comece apenas a acrescentar novas possibilidades.

Decidir sem informação suficiente é decidir no escuro. Mas isso não significa que exista uma relação infinita entre quantidade de informação e qualidade da decisão.

A literatura sobre excesso de informação e excesso de escolha aponta para uma situação mais complexa: contexto, dificuldade, quantidade de alternativas e nossa própria clareza sobre o que queremos importam. Talvez, por isso, uma habilidade importante para os próximos anos não seja simplesmente aprender a encontrar informação.

Nisso, as máquinas estão ficando extraordinariamente boas. Precisamos aprender a reconhecer quando já sabemos o suficiente para decidir, quais informações realmente importam e quais podemos simplesmente ignorar.

E existe uma pergunta ainda mais difícil, que fica para o próximo texto desta série: quando encontramos um dado, um estudo ou uma estatística que confirma perfeitamente aquilo que já pensávamos, somos capazes de submetê-lo ao mesmo nível de desconfiança que teríamos se ele dissesse exatamente o contrário? Porque talvez o maior problema da Era do Excesso não seja termos informação demais.

Talvez seja descobrir o que estamos fazendo com ela.

Referências

  • Chernev, A.; Böckenholt, U.; Goodman, J. K. Choice Overload: A Conceptual Review and Meta-analysis. Journal of Consumer Psychology, 2015.
  • Nickerson, R. S. Confirmation Bias: A Ubiquitous Phenomenon in Many Guises. Review of General Psychology, 1998.
  • Revisão de literatura sobre information overload, suas causas, consequências e estratégias de enfrentamento.

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